INTRODUÇÃO

(Muitas idéias aqui contidas foram retiradas do livro “A ética de cada dia”, do professor Martim Carlos Warth.)

Para ressaltar a importância deste estudo, vale lembrar que a organização básica da vida humana é a família. Ali acontece o prazer e a dor, o trabalho e o lazer, os erros e o perdão, a vida em todas as suas nuanças de riqueza pessoal e social. Por essa razão, Deus protege a família em todos os mandamentos, defendendo a vida (5o.), o sexo (6o.), a propriedade (7o.), a honra (8o.), a casa (9o.) e a própria família (10o.). Isso mostra que o centro da vida é a família e a honra aos pais. Que Deus abençoe o ler e meditar da sua Santa Palavra.

QUARTO MANDAMENTO: HONRARÁS A TEU PAI E A TUA MÃE, PARA QUE VÁS BEM E VIVAS MUITO TEMPO SOBRE A TERRA.

Deus nos criou seres sociais, Ele mesmo constatou a dificuldade de se viver sozinho (Gn 2.18). Não se pode amar o próximo em isolamento. Estar em sociedade implica numa diferenciação de pessoa a pessoa, embora todos sejam iguais diante de Deus, e assim também iguais perante a lei, a convivência em sociedade diferencia: não somos todos iguais perante a sociedade humana.

Há um fator extremamente delicado que é pressuposto da sociedade humana: a autoridade. Para poder haver convívio social, é necessário que um exerça autoridade sobre o outro. Assim não somos todos iguais na sociedade humana, mas precisamos aprender ou a ser autoridade ou a estar submissos à autoridade. A ausência de autoridade cria o caos e a bagunça com o que o ser humano não pode conviver como pessoa responsável.

A autoridade, na realidade, é uma só: é a autoridade de Deus. Diante dessa autoridade somos iguais: avaliados, julgados, amados e, quando na fé, perdoados. Mas Deus delega autoridade ao ser humano para que, em seu nome, a pessoa realize a vontade de Deus no mundo- Rm 13.1-5: “Obedeçam às autoridades, todos vocês. Pois nenhuma autoridade existe sem a permissão de Deus, e as que existem foram colocadas nos seus lugares por ele. Assim quem se revolta contra as autoridades está se revoltando contra o que Deus ordenou, e os que agem desse modo serão condenados. Somente os que fazem o mal devem ter medo dos governantes, e não os que fazem o bem. Se você não quiser ter medo das autoridades, então faça o que é bom, e elas o elogiarão. Porque as autoridades estão a serviço de Deus para o bem de você. Mas, se você faz o mal, então tenha medo, pois as autoridades, de fato, têm poder para castigar. Elas estão a serviço de Deus e trazem o castigo dele sobre os que fazem o mal. É por isso que você deve obedecer às autoridades; não somente por causa do castigo de Deus, mas também porque a sua consciência manda que você faça isso.”

Aceitar a autoridade e subordinação é realizar a santa vontade de Deus para o mundo. Essa autoridade e subordinação estão previstas para cada pessoa em relação com o seu próximo. O próximo sempre é autoridade sobre a pessoa, pois o ser humano foi criado para servir um ao outro. Quando, por isso, quero saber a vontade de Deus para mim hoje, preciso olhar ao meu redor. Quem eu vejo? O meu próximo, com sua necessidade, vai ser a autoridade que me indica e mostra onde posso servir em amor. Da mesma forma, eu indico ao meu próximo a sua oportunidade de servir (Lc 10.25-37- O Bom Samaritano). Assim somos servos uns dos outros, cumprindo a 2a. tábua da Lei: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Essa é a verdadeira submissão a que se refere Paulo em Efésios 5.21: “Sejam obedientes uns aos outros, pelo respeito que têm por Cristo.” É a submissão na ternura de amar e servir ao próximo.

O que pode ser observado hoje em dia é uma crise generalizada de autoridade, uns não respeitam, outros não se dão a respeitar. Lutero já observava isso na sua época quando falou: “Por que outro motivo, julgas tu, está o mundo agora tão cheio de infidelidade, desonra, miséria e homicídio, senão porque cada qual quer ser dono de si mesmo, perfeitamente autônomo, a ninguém dar atenção e fazer tudo o que lhe apetece? Por isso Deus castiga um velhaco por instrumentalidade de outro, de maneira tal, que, se tu ludibrias e desprezas o teu Senhor, vem aí outro e procede contigo da mesma forma. Sim, em tua própria casa tens de agüentar dez vezes tanto da mulher, dos filhos ou dos empregados”.

Em se tratando especificamente deste Mandamento, o mesmo aponta que devemos não apenas amar, mas “honrar” pai e mãe. Lutero trata isso de forma muito séria quando diz: “Honrar muito mais elevada coisa é que amar. Não abrange apenas amor, senão modéstia, humildade e reverência como por uma majestade aí oculta. E honrar não requer apenas que nos endereçamos aos pais de modo amável e respeitoso, porém, acima de tudo, que de todo coração e corpo nos disponhamos de maneira tal, que os tenhamos em alta conta e os coloquemos no lugar mais elevado depois de Deus. Pois que para honrar alguém de coração é preciso que deveras o tenhamos por elevado grande. Cumpre, por isso, incutir à gente moça que vejam nos pais representantes de Deus”.

Os pais são representantes de Deus! Vale lembrar que o poder não está nos pais, não devemos honrá-los porque merecem, ou são bons e queridos, mas acima de tudo porque Deus manda, diz Lutero nesse sentido: “mesmo que os pais sejam modestos, pobres, fisicamente deficientes ou meio esquisitos, não deixam de ser pai e mãe dados por Deus e não ficam privados dessa honra por causa de sua conduta ou em razão de fragilidades. Por isso não devemos olhar a pessoa, como é, mas a vontade de Deus, que assim estabelece e ordena”. Pv 23.22: “Escute o seu pai, pois você lhe deve a vida; e não despreze a sua mãe quando ela envelhecer”.

A autoridade dos pais, como representantes de Deus, precisa ser preservada com conselhos, exemplos e amor. Há ocasiões em que o ofício de pais pode exigir repressão firme para restabelecer a autoridade necessária para cumprir a vontade de Deus. Essa repressão pode ser firme, como o ofício o exige, mas deve ser com amor e justiça que emanam do amor de Deus.

Como representantes de Deus, os pais cristãos estão prontos a perdoar todos os erros dos filhos quando esses se arrependem e confessarem estes erros a Deus e aos pais (Cl 3.13). Mas, mesmo com o perdão pessoal, pode permanecer uma pena oficial a ser imposta. Deus impõe as penas não como castigos, pois Cristo sofreu o castigo por nós- (Rm 8.1) mas como repreensões paternais ou conseqüências do pecado cometido, conforme Hb 12.7-11: “Suportem o sofrimento com paciência como se fosse um castigo dado por um pai, pois o sofrimento de vocês mostra que Deus os está tratando como seus filhos. Será que existe algum filho que nunca foi corrigido pelo pai? Se vocês não são corrigidos como acontece com todos os filhos de Deus, então não são filhos de verdade, mas filhos ilegítimos. No caso d
os nossos pais humanos, eles nos corrigiam, e nós os respeitávamos. Então devemos obedecer muito mais ainda ao nosso Pai celestial e assim viveremos. Os nossos pais humanos nos corrigiam durante pouco tempo, pois achavam que isso era certo; mas Deus nos corrige para o nosso próprio bem, para que participemos da sua santidade. Quando somos corrigidos, isso no momento nos parece motivo de tristeza e não de alegria. Porém, mais tarde, os que foram corrigidos recebem como recompensa uma vida correta e de paz.”
Assim também os pais podem, por dever de ofício, aplicar uma pena ou sanção aos filhos, esta deve ser moderada e com amor, mas firme e precisa. A intenção é ganhar o filho, para que ele não se destrua. Nenhum castigo pode ser exagerado, desumano ou aplicado com ódio. Os pais são representantes de Deus para ajudar os seus filhos a viver (Pv 13.24; Pv 12.1).

É bom destacar que a autoridade é de Deus, apenas foi delegada aos pais quando estes aceitaram o chamado de Deus para exercerem a função de pais. Os filhos não pertencem aos pais, mas a Deus. Daí a importância e obrigação dos pais de encaminha-los na educação cristã – Pv 22.6: “Eduque a criança no caminho em que deve andar, e até o fim da vida não se desviará dele.” e Dt 6.6-8: “Guardem sempre no coração as leis que eu lhes estou dando hoje e não deixem de ensiná-las aos seus filhos. Repitam essas leis em casa e fora de casa, quando se deitarem e quando se levantarem. Amarrem essas leis nos braços e na testa, para não as esquecerem” Os pais não possuem poder absoluto sobre os filhos, mas administram a paternidade em nome de Deus. Quanto mais crescerem, maior será a autonomia dos filhos. Mas a honra dos pais permanece para sempre. Sobre como os pais muitas vezes se comportavam no seu tempo, Lutero tem algo muito sério a nos dizer hoje: “Todos se comportam como se Deus nos desse filhos para nosso deleite e passatempo, serviçais para deles nos valermos, como de vacas ou burros, apenas para o trabalho, ou súditos para os tratarmos a nosso bel-prazer. (…) Antes (Deus) nos deu e confiou filhos para que os eduquemos e governemos de acordo com sua vontade. Não fosse por isso, nenhuma necessidade haveria de pai e mãe. Saiba, por conseguinte, cada qual que é seu dever, sob pena de perder a graça divina, educar os seus filhos, acima de tudo, no temor e conhecimento de Deus”.

Toda a autoridade é derivada dos pais. Desta autoridade tem origem toda e qualquer outra autoridade. Três são as espécies de pais apresentadas neste Mandamento: 1) Os pais da casa, que são os nossos pais (pai e mãe); 2) os pais da nação, que são todos os nossos superiores (patrões, governo, professores, etc.); 3) e os pais espirituais, que são os que nos ensinam a Palavra de Deus (professores da Escola Dominical, pastores, etc.).

Nossos superiores, portanto, são todos aqueles que estão acima de nós, quer seja, no lar, na escola, no estado e na Igreja. São pessoas que Deus colocou acima de nós para o nosso bem. A eles precisamos honrar, obedecer, servir e amar. Este é o único Mandamento que contém uma promessa especial: a de uma vida longa.

Quem cumprir este Mandamento terá bons dias, felicidade e prosperidade. Por outro lado, quem for desobediente, tanto mais cedo irá morrer e nunca terá uma vida alegre. Pois a longa vida, de acordo com a Escritura, não significa apenas ficar velho, mas também ter tudo o que pertence a uma vida longa, como por exemplo: saúde, cônjuge, filhos, alimentação, paz, bom governo, etc., coisas que precisamos para sermos felizes.

Em Efésios 6.1 lemos: “filhos obedecei aos vossos pais no Senhor, pois isto é justo”. No SENHOR significa obedecer aos nossos pais e superiores enquanto os mesmos nos pedem algo que não vai contra a vontade de Deus, pois, no momento em que eles nos mandam fazer algo de errado, contra a Palavra de Deus, não podemos e nem devemos obedecê-los, pois a Bíblia diz: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens”. (Atos 5.29).

Pastor Flávio Luis Hörlle – Ponta Grossa, PR