A história de José (Gênesis 30.22-24; 37-50) é uma das mais belas e profundas de toda a Bíblia: cresceu em um lar conturbado, perdeu sua mãe ainda jovem, foi separado do amor de seu pai ao ser traído e vendido como escravo pelos próprios irmãos, jogado na prisão injustamente por causa de uma calúnia e, contra todas as probabilidades, graças aos dons que Deus lhe dera, tornou-se a segunda pessoa no governo do Egito, administrando a potência mais importante de sua época e sendo uma ferramenta fundamental para promover o bem-estar social e a preservação da família que o rejeitara, que constituía-se no núcleo embrionário da nação de Israel, de onde o Messias descenderia.

Todos nós temos relação com a história de José e temos muito a aprender com ele.

A maioria dos evangélicos, contudo, lêem esta história e mantém seu foco em apenas um evento: a chegada de José ao poder no Egito, formulando o seguinte princípio:

“Se Deus colocou um escravo no trono do Egito, fará o mesmo comigo”.

É o que chamo de princípio da exaltação.

Eu não duvido de que Deus, em sua soberania, realmente abençoe pessoas de forma surpreendente, levando-as a, contra toda probabilidade humana, assumirem postos de extrema relevância na sociedade (Jó 42.2; Salmo 113.7-8; Daniel 4.35).

Me incomoda, porém, o simplismo, automatismo e generalização implícitos no chamado “princípio da exaltação”, que se revela falso justamente por ignorar outros importantes fatos da história de José:

1. José possuía habilidade para assumir o cargo que Deus colocara sob sua responsabilidade: já demonstrara ser um exímio administrador na casa de seu pai (Gn 37.2-3, 13-14), na casa de Potifar (Gn 39.2-6), e mesmo na prisão (Gn 39.20-23). Era uma pessoa amável (preocupava-se em ser útil onde quer que estivesse) e de elevado compromisso ético (Gn 39.8-9). Ou seja, Deus não “exaltou” José apenas para recompensá-lo particularmente (e é somente isto que o  princípio da exaltação consegue visualizar: a “posição de destaque”, que deve ser um pretenso elemento automático na vida de quem crê)  mas a história de José nos mostra que Deus coloca a pessoa certa no lugar certo. Deus não se comprazeria  com o sofrimento causado por uma pessoa inepta em uma posição de liderança e que lá estaria por ter sido supostamente “exaltada” por Ele – não o faça cúmplice de uma coisa destas! Ele não deixa de reconhecer os dons que Ele distribui para que o serviço (outra palavra que o “princípio da exaltação” desconhece) prestado ao próximo seja eficaz, bem como não deixa de reconhecer o esforço de servos dedicados que buscam aprimorar e usar seus talentos em Sua presença, alimentando a preguiça daqueles que esperam soluções mágicas e reivindicam “exaltações” automáticas.

Deus distribui dons diversos e vocações diversas – não é porque uma vocação se cumpre de forma “humilde” (ou seja, longe dos holofotes), que isto signifique que ela deixe de ter relevância ou seja menos “exaltada”. 

2. José executou um serviço de extrema relevância para a sociedade de seu tempo: para José, “chegar no topo” não foi um fim em si mesmo, mas um meio para prestar um serviço relevante a Deus e à sociedade (Gn 41.46-49, 53-57)*, ou seja, uma oportunidade de ministério. Temo que o princípio da exaltação seja fixado em “lugares de destaque” como um fim em si mesmo, subordinado apenas aos interesses e á vaidade do indivíduo.  

3. José estava a serviço de um propósito maior: Deus não tem filhos mimados. Ele não exalta para massagear egos. A chegada de José ao poder servia aos propósitos redentores de Deus (Gn 50.20). A serviço de quê estão alguns projetos megalomaníacos gerados pelo princípio da exaltação?

A história de José é um incentivo para que não deixemos de cultivar nossos dons e talentos, para que não paremos de estudar, trabalhar e servir. Deus tem uma vocação para cada um de nós, a qual mesmo contra todas as probabilidades humanas Ele deseja cumprir. Devemos nos empenhar em ser as pessoas certas para Deus enviar ao lugares certos.

Que não mais leiamos a história de José para alimentar nosso individualismo e cobiça.

O segredo não é o posto de José. Mas aprender a ser como José.
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*Faço uma ressalva, porém, no sentido de que a ação de José poderia ter sido um pouco mais criteriosa, pois (talvez de forma inconsciente) ele acabou fortalecendo o imperialismo de Faraó (Gn 47.13-26).

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