O evento em que Jesus alimenta a multidão de 5.000 e sua aparição aos discípulos quando andou através das águas, representam o convite à comunhão com Deus (Mt 14.13-33).  O discurso de Jesus sobre o pão da vida deixa claro o significado e a função do sinal (26-71). Fala de comer o pão que desceu do céu, o que significa, crer naquele que Deus enviou (v 29). O sinal da multiplicação aponta para algo muito mais profundo, pois se refere ao alimento que resiste ou permanece para a vida eterna (v 27). Ultrapassa o sentido de uma “mera obra assistencial” de Deus (v 28), que o homem pode fazer a alguém por si mesmo. Aqui trata de uma espécie de alimento em que o homem é incapaz por si mesmo.

Quando Jesus afirma que é o pão celeste e que quem comesse tal pão viveria para sempre (51), causou grande instabilidade e o povo não entendeu que essas palavras se referiam a apropriação espiritual. Porém, em lugar de explicar sua afirmação, Jesus repete: que quem não comesse do meu corpo e não bebesse do meu sangue, não teria a vida eterna (53).  O ponto aqui é que a graça de Deus se traduz na confiança que o Pai tem em seu Filho, enviando não apenas para dar o pão (34), mas também para ser o verdadeiro alimento que dá vida ao mundo (32, 33, 35). A pessoa de Deus em Jesus Cristo é pão da vida (35, 48), vida eterna e a Palavra que se tornou carne (1.1, 14).  O pão que Jesus dá para a vida do mundo é o seu corpo (51) como Cordeiro de Deus (1.29) crucificado e que o sangue (53, 55, 56) é derramado em favor da vida no mundo. Quem quer que coma desse pão e bebe desse sangue, ou melhor, desse evangelho traduzido na Palavra e Sacramentos, terá a vida eterna e ressuscitará como Jesus Cristo (54). A pessoa que come do corpo e bebe do sangue de Jesus, está em permanente comunhão com Cristo que compartilha a vida do Pai, a fonte e Criador de toda a vida (57).

A Fórmula de Concórdia (SD VII, 61-62) identifica este comer com fé, e enfatiza que ela se nutre do Evangelho, e isto envolve os todos os meios que Deus dispõe ao homem para a salvação, como por exemplo, também a Santa Ceia. A expressão comer e beber indica uma intima relação com o sacrifício de Cristo na cruz. A humanidade come seu corpo e sangue quando se apropriam dos benefícios que tal sacrifício concede – o Evangelho do perdão.

Assim como a comida e bebida está para a vida física, o corpo e o sangue de Cristo estão na mesma relação com a verdadeira vida dada por Deus no evangelho (55). Se não comermos, morreremos. O alimento nos nutre. Da mesma forma, o comer e o beber se refere ao apropriar-se dos benefícios do evangelho, do próprio Cristo. Desta maneira, Cristo vive e habita no cristão (56) e concede a vida espiritual e terna. Em Cristo um qualquer ser humano alcança a mesma fonte de vida que Cristo tinha junto ao Pai. Assim como o Pai é a causa da vida de Cristo, de modo semelhante, a existência de Cristo se deve ao Pai, assim também o cristão tem vida e existência por causa de Cristo (57).

Exatamente por isso, não há comparação alguma entre o maná que os israelitas comeram e Cristo. A leitura está cheia de figuras de linguagem, como faz frequentemente a Escritura para nos ensinar com elas importantes verdades espirituais. Neste caso, por meio do comer terreno, Jesus fala do comer ou degustar o Evangelho, ou comer espiritual. A menos que os seres humanos se apropriem de Jesus Cristo, o evangelho, por meio da fé, não terão vida.

A cada palavra que Jesus fala do sinal, ele ilumina e aponta as grandes coisas que Deus deu ao seu povo por meio de Moisés (1. 17; 6. 31, 32, 58). Inevitavelmente o sinal é testificado contra o povo e torna-se quase que um testamento “sem herdeiros”, ou uma herança não recebida (Lc 2.34).  Os judeus reclamaram quando o filho de José (41) pede a ancestralidade ou descendência divina e vinda como  parte do povo de Deus (38-40); eles tinham várias disputas entre si (52) quando a graça do Filho do homem e o amor do Pai confrontou eles com o presente do evangelho da vida eterna no sacrifício do Filho do Homem. Até mesmo, vários discípulos, chegaram a dizer que as palavras de Jesus eram duras de mais, deixando a sua comunhão (66), e apenas depois, quando as “grandes coisas” começam a acontecer é que eles creem na completa gloria do Filho do Homem (Jo 1.50-51).

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Mas o sinal não foi dado e interpretado em vão. É dado para que os homens possam crer que Jesus é o Cristo de Deus” e que ao crer, “possam ter vida eterna por meio do uso do seu nome” (20.30). Em Simão Pedro e nos outros discípulos (67, 68) nasce uma fé que oscila, mas que não se perde, porque tem as palavras da vida eterna. No caso de Judas, a fé oscilante se perdeu (71) por que permitiu que o diabo o vitimasse, ou seja, deixou satanás romper a comunhão com o salvador. 

 

Disposição do sermão

Introdução: Quem come do que é bom é sábio. A palavra “sábio” vem de um termo que em latim que significa “sabor” ou “saborear”, que na verdade também é um saber. Quem tem sabor e saboreia é sábio. Assim…

Alimentar-se do que é saboroso e sábio…

A. Nos liga com Cristo, o alimento espiritual: O evangelho e tudo o que ele representa e se traduz.

1. Pois Jesus não se refere ao comer natural e físico, mas também ao espiritual.

a. Não se refere ao comer e beber sacramental apenas, senão que ao apropriar-se por meio da fé do Evangelho, Jesus Cristo.

b. A expressão do “comer e beber” indica fé, bem como a relação e comunhão com alguém.

2. Por isso é importante diferenciar entre “fé de coração” e conhecimento propriamente dito.

a. Fé não é apenas concordar verdades sistemáticas sobre a Escritura e depois cumprir uma série de ritos. Fé na esperança, no evangelho, em Jesus Cristo, não é apenas um habito prático cultural

b. Fé é identificar-se com Cristo, saborear Cristo e seu evangelho de tal forma que sua palavra e vontades façam parte de toda a nossa existência. Fé é uma relação viva e dinâmica incluindo conhecimento e o saber com confiança de coração. Isto faz com que Cristo viva em nossas vidas e nos torne cristãos.

B. Faz com que Cristo viva em nós e nos fortaleça e nos torne sábios e degustador

es de sua comunhão.

1. Porque Jesus habita verdadeiramente na pessoa, no cristão – não está ausente (56; Ap 3.20).

a. Muitas vezes não o sentimos, porém vive naquele que come e bebe o seu sangue, que nele crê (1 Co 3.16; 6.19; 2 Co 6.16).

b. Quem tem Cristo é uma pessoa que fala em Cristo, pois nossa língua em mãos termina por serem de Cristo.

2. Pois Jesus afeta nossas vidas.

a. Nos limpando diariamente.

b. Nos capacitando a pensar e falar como Cristo.

c. Influenciando e perpassando todas as nossas relações. O Cristo que vive em nós é a marca que diferencia quem está vivo e quem está morto, entre ser sábio e insano.

C. Porque faz com que tenhamos neste mundo vida espiritual.

1. Assim como é necessário comer para seguir com a vida, assim é necessário comer Cristo para seguir com a vida espiritual.

a. Não há outra maneira de chegar a vida e permanecer nela (53; Jo 14.6).

b. Jesus nos nutre por meio da palavra e sacramentos (Rm 10.17).

2. Concedendo vida agora.

a. Mesmo que nos sintamos sem vida, sua vida está em nós (Rm 6.4,11).

b. Mesmo que nos sintamos abandonados, Cristo vela sobre nós.

3. Por fim, chegaremos a vida eterna e tomaremos posse do reino.

a. Morreremos, porém Cristo nos ressuscitará (54).

b. Nos deu sua palavra e nos assegurou com sua ressurreição.

Conclusão: Jesus é o alimento verdadeiramente sábio e bom para nós. Ele se serve no evangelho para o degustarmos todos os dias com sua salvação e perdão. Quem não gosta de saborear coisas boas como o evangelho? Este quem come do que é bom, também é sábio.

 

P. Aragão