Otávio Júlio Torres


Alusivo ao dia da Bíblia.


Nunca se fez tão necessário, como nos dias de hoje, apegar-se às palavras das Escrituras bíblicas, como Timóteo é orientado a fazê-lo (2 Timóteo 3.14-17). Dias marcados pelo enfraquecimento e desvalorização da Escola Dominical (como lugar privilegiado para o estudo da Bíblia); dias marcados pelo esvaziamento dos ambientes destinados ao estudo bíblico. Isto é tão notório que há confissões cristãs surgidas e baseadas, exclusivamente, em celebrações cúlticas de oração e libertação.


Certamente, este é um serviço importante a ser prestado pela Igreja em dias de “multidões de ovelhas sem pastor”, como bem destacou Jesus. Entretanto, também não deve ser relegado ao segundo plano ou descartado o valor que Jesus reservou ao ensino. Os estudiosos da Bíblia concordam amplamente que Jesus tenha dedicado, nos relatos dos Evangelhos, cerca de 50% do seu tempo ao ensino das Escrituras. Os outros 50% foram dedicados à evangelização (pregação do Reino) e à libertação (operação de sinais e maravilhas).

Dito isto, é nosso objetivo neste texto, dedicado às comemorações do Dia da Bíblia, partilhar, à luz do metodismo, dois enfoques possíveis de interpretação bíblica: (1) A interpretação dos textos bíblicos a partir de nossa experiência de fé, ou seja, no contexto da nossa vida diária; e (2) a interpretação da Bíblia a partir de procedimentos científicos, que procuram desvendar o sentido que o texto representava para o local, época e comunidades nos quais foi formulado.

O primeiro enfoque consiste numa abordagem prática, direcionada a captar a mensagem dos textos para o hoje da fé e do discipulado. E o segundo é uma tarefa que tem na ciência o seu fundamento. Não obstante, ambos são contemplados positivamente no ambiente dos escritos bíblicos (Lucas 1.1-4; Atos 7.22; 1 Pedro 3.15).

Na história do Metodismo, vemos também essas duas vertentes. Como declararam Carlos e João Wesley: “Vamos unir duas coisas há tempos separadas: a ciência e a piedade vital”.João Wesley dizia que nenhuma formulação teológica, por melhor estruturada que fosse, poderia ser anterior à vivência da fé e do amor, na vida cristã: “Quanto mais deve ser o amor preferido… à própria verdade sem amor” (Sermões I). No entanto, isso não significa que ele fosse indiferente à questão da verdade, alimentando atitudes pietistas extremadas ou avessas à reflexão teológica. Para Wesley, a compreensão teológica nos serve como instrumento a serviço da fé e da vida cristãs.

A Bíblia é, para Wesley, a autoridade suprema e definitiva em termos de reflexão teológica. Todavia, ele evita sabiamente enveredar pelos caminhos tortuosos da exegese (explicação interpretativa) literalista e do biblicismo. E, por isso, desenvolveu uma estrutura teológica bem configurada, seguindo passos e procedimentos metodológicos bastante nítidos, que conhecemos como quadrilátero metodista, tendo a Bíblia ao centro:

Experiência Razão
Bíblia
Criação Tradição

A tradição, para Wesley, significava a valorização da experiência histórica da Igreja Cristã. Ele considerava sua formação anglicana, reafirmava o valor dos escritos antigos da Igreja, bem como os concílios e credos ecumênicos dos Reformadores. Mas, entendia que o significado pleno da fé em Cristo não pode ser compreendido unicamente por meio do conhecimento da tradição. Daí, o valor inestimável da experiência.


A experiência atualiza a convicção viva da transformação que Cristo realiza em nós (João 9.25). Wesley, entretanto, também sabia que somente a experiência pessoal é insuficiente para uma interpretação bíblica responsável. Uma teologia construída exclusivamente na experiência dá margem para o subjetivismo e o fanatismo.

Por isso, a razão desempenha um papel insubstituível na reflexão teológica e na experiência da fé. Ela equivale ao bom senso ou ao senso comum humano. Ela evita os exageros de determinadas aplicações de textos bíblicos que não consideram, por exemplo, o seu contexto próprio, que indica as particularidades de seu uso. Ele recomenda: “Faça à razão tudo o que ela pode; usai-a até onde ela pode ir”.

Por último, Wesley destaca que a Criação de Deus também se nos apresenta como critério para compreendermos a revelação divina (Salmo 19.1). Salienta que, ao observarmos a Criação, adquirimos algum conhecimento de Deus.

No seu prefácio aos Sermões, Wesley apresenta resumidamente seu método interpretativo. Os textos
entre parênteses e em negrito são destaques nossos:


“Há alguma dúvida acerca do significado do que leio? Alguma coisa parece obscura e de difícil compreensão? Elevo o meu coração para o Pai das luzes: Senhor – não é palavra tua? – ‘se alguém tem necessidade de sabedoria, peça-a a Deus’. Tu a dás ‘liberalmente e sem recriminações’. Tu disseste: ‘se alguém quiser fazer a tua vontade conhecerá’. Desejo fazê-la; deixa-me conhecer a tua vontade (neste trecho aparece o uso da experiência pessoal de Wesley com Deus). Então, busco e pondero passagens paralelas da Escritura, ‘conferindo coisas espirituais com espirituais’ (aqui aparece o uso da Bíblia). Medito nelas, com toda a atenção e determinação de que minha mente é capaz (uso da razão). Se alguma dúvida ainda permanece, consulto os que são experimentados nas coisas de Deus e, depois, os escritos pelos quais, mesmo mortos, ainda falam (uso da tradição). Aquilo que assim aprendo, isso ensino.”

Concluindo, é mister lembrar a advertência deixada em Hebreus 4.12: “Porque a palavra de Deus é… mais cortante do que qualquer espada de dois gumes”. E uma espada em mãos erradas – seja nas mãos de quem não sabe manuseá-la, seja na mão de quem a usa para praticar o mal – pode gerar a morte. Assim, Dave Hunt, em seu livro “Escapando da Sedução”, alerta a igreja sobre o perigo de, no desejo sincero de comunicar o Evangelho, cair no modernismo. Isto é, transformar a mensagem do Evangelho numa pregação aceitável pelas pessoas com a adoção de ideias do mercado consumista, revestidas de um vocabulário bíblico, para oferecê-las como verdades do Evangelho para o mundo. Por isso, em nossa comemoração ao dia da Bíblia, vale a pena destacar o método wesleyano, visando evitar leituras das Escrituras contrárias ao próprio Evangelho nelas anunciado.

Glossário:

Exegese: Explicação interpretativa da Bíblia que obedece a procedimentos científicos. Exemplo: Filologia (estudo das línguas originais, hebraico e grego), Crítica Textual (analisa e sugere correções aos diversos manuscritos dos textos da Bíblia), Crítica Literária (estuda os textos sob o ponto de vista da sua produção literária – autoria, estilo de redação, coesão e estrutura interna do texto, etc.).

Biblicismo: Apego exagerado à Bíblia para explicar todos os fatos passados, presentes e futuros. A Bíblia conteria, assim, as respostas a todas as questões, sem considerar as limitações próprias de tempo, cultura e espaço experimentados pelos autores bíblicos.

Exegese literalista: Credibilidade total à letra do texto bíblico, sem perguntar pelo contexto gerador do escrito e sua intenção.

Fanatismo: Excessivo zelo religioso, que nega a voz da razão; adesão cega a uma doutrina.

Pietista: palavra que remete a um grupo religioso dos tempos de Wesley e desde os primeiros reformadores. Sua ênfase era a piedade pessoal, com amplo uso de jejuns, orações, e obras de misericórdia, como assistência aos pobres, órfãos, viúvas, etc. Sua ênfase nas questões morais era muito elevada. Eram radicais em sua busca de perfeccionismo e seu nível de exigência quanto à fé e à prática era muito elevado.

Subjetivismo: Sistema de pensamento relativo à pessoa que somente admite suas ideias como verdadeiras, mesmo que não haja fundamentação ou argumentação que as valide.

 

Fonte: Filosofia e Teologia