Data: 14º DOMINGO APÓS PENTECOSTES – 2009
Textos base: Sl 146    Is 35.4-7    Tg 2.1-10, 14-18    Mc 7.31-37

Nesta sociedade de prestação de serviços e de consumo, é comum a desconfiança. Não é por menos. Todos nós temos histórias  de algum tipo de serviço ou de alguma mercadoria que adquirimos, e que o resultado foi frustração. E isto é normal neste mundo de negócios, onde existe desonestidade e também falhas. Por isto o Código do Consumidor, que são normas de proteção e defesa do consumidor.

A cada mês a Fundação Getúlio Vargas divulga uma pesquisa sobre a confiança do consumidor – conhecido como Índice de Confiança do Consumidor.  Este índice é divulgado a cada mês, conforme a reposta dos itens levantados e especialmente conforme a situação da economia.

De vez em quando a gente houve nos jornais da televisão, que o Índice de Confiança do Consumidor teve queda, ou teve alta, e daí eles mostram uma dona de casa comprando no supermercado, ou alguém comprando um produto numa loja de eletrodomésticos.

Falo deste assunto, porque os textos bíblicos de hoje tratam sobre os bens e serviços prestados por Deus.

Mas, e se nós fizéssemos uma pesquisa aqui entre nós, sobre o índice de confiança nos produtos e serviços de Deus, qual seria o resultado?

-Estamos satisfeitos?

– Estamos mais ou menos satisfeitos?

– Confiamos nos serviços de Deus?

Infelizmente, transportamos a nossa desconfiança e dúvidas com respeito aos bens e produtos aqui deste mundo imperfeito, para os bens e serviços de Deus. Por exemplo: Você comete um grave pecado e na Bíblia você lê que Deus perdoa todos os pecados. Mas daí surge a dúvida: Será que o perdão em Cristo pode realmente resolver este meu problema?  Será que não preciso fazer alguma coisa – aumentar a minha oferta, fazer alguma obra de caridade, para ajudar da obra de Jesus, e merecer o perdão dos pecados?

Ou ainda você está passando por dificuldades financeiras, ou uma doença, ou um problema familiar, no casamento, enfim, você está enfrentando uma situação muito difícil, e daí vem a dúvida: – Será que Deus sabe o que estou enfrentando? Será que ele se esqueceu de mim? Ele me ama? Será que ele pode ou quer me ajudar?

Pois meu amigo, minha amiga, gostaria que hoje todos saíssemos daqui convencidos de que nossas dúvidas e desconfianças sobre as promessas de Deus, além de não terem nenhum fundamento, deixam Deus muito triste. Afinal, é o mesmo que chamar Deus de caloteiro, mentiroso, alguém que não é de confiança. Desconfiar de Deus é muito ruim para nós. Portanto,  que os textos de hoje nos ajudem contra este mal.

Mas, antes de tudo, é preciso dizer que isto faz parte de cada um de nós: desconfiar de Deus. No evangelho, Marcos nós dá um forte antídoto para este mal que atinge a todos nós, filhos de Deus, cristãos. Ele nos assegura que não há nenhuma razão para duvidar de Deus e se preocupar quanto a sua capacidade e seu amor no tratamento que ele tem com cada um de nós.

O evangelista narra a história da cura de um homem surdo e que tinha dificuldades para falar. A história seria igual a tantas outras narradas nos Evangelhos, já que Jesus curou muita gente de seus problemas de saúde. Mas uma coisa o evangelista colocou na narrativa, e que chama a atenção quando nosso assunto é confiança. Diz o Evangelho:

“E todas as pessoas que o ouviam ficavam muito admiradas e diziam: – Tudo o que faz ele faz bem”.

– “Tudo o que faz ele faz bem”

A palavra “bem” – kalis no grego, pode também ser traduzida como “correto, apropriado, totalmente suficiente para a situação. Ou “esplêndido” – termo que usado na versão do Almeida – a Bíblia antiga. Esta é uma palavra usada na parábola de Jesus sobre a casa que foi construída exatamente certa, que resistiu a enchente. Tiago usou a mesma palavra na epístola de hoje, para descrever os homens ricos que estão “bem vestidos” –  roupas que não dá para colocar nenhum defeito.

O apóstolo Paulo também usa este termo para descrever o trabalho dos pastores que pregam corretamente a Palavra de Deus e por isto merecem toda a consideração.

É importante aqui dizer que NÃO foi Jesus que disse: Olha pessoal, vejam como eu faço tudo bem, vejam as maravilhas que eu faço.

Jesus não precisava fazer isto. Aliás, quando é preciso fazer propaganda de si mesmo, isto é um tiro no pé. Na verdade, a melhor propaganda, a realmente eficaz, é o testemunho dos outros, dos consumidores.

No evangelho percebemos isto. Foram as pessoas que assistiram o jeito de Jesus, ou que foram curados por Jesus, que disseram:

– “Tudo o que faz ele faz bem”

Aliás, é estranha a ordem de Jesus. Ele pediu que não contassem para ninguém o que tinha acontecido. Mas o evangelista sublinha que “quanto mais ele ordenava, mais eles falavam do que havia acontecido”.

Na verdade, Jesus queria mesmo era tempo,  condições, ambiente, para o verdadeiro propósito para que veio a este mundo de pecado e sob as conseqüências malditas do pecado. Tanto que mais tarde ele começa a fazer separação entre discípulos e seguidores, pois a igreja que ele estava construindo não poderia ser constituída por seguidores atrás de vantagens terrenas e materiais.

Mas, Jesus nunca deixou de ajudar as pessoas, mesmo aquelas que não estavam interessadas no principal.

E estas pessoas socorridas, ajudadas, tornavam-se automaticamente testemunhas, não deixavam de dizer:

– Não existe ninguém igual a Jesus – ele faz tudo muito bem.

É assim quando a gente encontra um médico que nos tratou com atenção, que nos ajudou. A gente fala para os outros. É assim com qualquer prestador de serviços, com qualquer empresa que comercializa produtos. Se os consumidores ficarem satisfeitos, nem precisa colocar propaganda na mídia.

E é assim numa igreja. Não é preciso fazer grande alarde quando ela tem um bom produto e quando os consumidores são bem atendidos.

Por isto, a pergunta: Qual o Índice de Confiança do Consumidor da comunidade São Paulo?

Bom, vocês devem estar pensando nos pastores. E com certeza, nós pastores, somos parte importante nos quesitos destes índices. Sabemos muito bem disto, que precisamos ser bons pastores para que os “consumidores” fiquem satisfeitos.

Mas será que o Índice de Confiança do Consumidor da igreja é feita só pelos pastores? É evidente que não. Somos uma equipe, pastores e membros. E os verdadeiros consumidores são os de fora, os estranhos, os visitantes.

É neste sentido, da igreja ser uma equipe, que a Epístola de Tiago lembra que não devemos fazer diferença entre ricos e pobres, especialmente dentro de uma igreja. Devemos tratar as pessoas de maneira igual – da mesma forma como Deus nos trata. As pessoas logo percebem i
sto, quando se faz distinção, quando se faz separação – especialmente quando a questão é social e financeira.
E quando são as atitudes de amor, carinho e respeito pelos outros a grande propaganda de uma igreja, Tiago vai direto na mosca: “Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé se ela não vier acompanhada de ações? (…) A fé é assim: se não vier acompanhada de ações, é coisa morta” Tiago 2.14,17

Na verdade, Tiago está dizendo que, além da conseqüência natural da fé, as obras são a melhor propaganda. Ou como se fala, “um gesto vale mais que mil palavras”.

E sabem, meus irmãos –  quando o assunto mesmo aqui é a confiança – é importante dizer que o melhor testemunho que podemos dar às pessoas é a nossa confiança em Deus.

Aliás, nestes tempos de tanto medo, desconfiança, pavor, é a grande oportunidade que temos para mostrar a diferença de uma vida tranqüila, equilibrada, mentalmente sadia. Tudo isto fruto da confiança num Deus que faz tudo muito bem.

É isto que o texto de Isaías aponta: “Digam as desanimados: Não tenham medo; animem-se, pois o nosso Deus está aqui” (Isaías 35.4)

O Salmo 146 também sublinha esta visibilidade do poder de Deus na vida dos cristãos.

“Que todo o meu ser te louve, ó SENHOR! A vida inteira eu louvarei o meu Deus” (1,2).

Muitas vezes as pessoas de fora da igreja nos acusam, que dentro da igreja somos uma coisa, e fora da igreja somos outra. E eles têm razão. Isto não quer dizer que precisamos ser santinhos, nunca errar e falhar.

Mas eles estão certos quando nosso culto a Deus termina no momento quando colocamos o pé para fora da porta da igreja.

Na verdade, o que as pessoas querem ver naqueles que estão nos cultos e se dizem cristãos, é encontrar nos cristãos  um Deus que ajuda. Não o Deus da prosperidade – que é propaganda enganosa. Mas o Deus que ajuda. E quando eles enxergam em nós, que temos os mesmos problemas que eles, que ficamos doentes, que temos conflitos na família, que erramos e pecamos, enfim, que somos de carne e osso como eles – mas que, mesmo diante de tudo isto, temos um Deus que não nos abandona, mas ao contrário, nos socorre, com certeza eles vão querer este mesmo Deus.

Por isto o Salmo 146: Não ponham a sua confiança em pessoas importantes, nem confiem em seres humanos, pois eles são mortais e não podem ajudar ninguém (…) Feliz aquele que recebe ajuda do Deus de Jacó, aquele que põe a sua esperança no Senhor, seu Deus, o Criador do céu, da terra e do mar e de tudo o que neles existe! O SENHOR sempre cumpre as suas promessas (3, 5,6).

Na história deste homem surdo que foi curado por Jesus, tem três detalhes muito importantes – quando seguidamente desconfiamos dos serviços de Deus.

Lemos que Jesus tirou o homem do meio da multidão. O tratamento foi pessoal, individual. Ou como se diz hoje, personalizado.

Isto é bom a gente saber, quando nos sentimos abandonados e sozinhos. Deus nos tira no meio da multidão. Ele não nos deixa esperar na fila, nem se esquece de nós. Jesus mesmo disse que Deus sabe até quantos fios de cabelos temos em nossa cabeça.

Jesus, ao falar sobre a oração em Mateus 6, lembra este detalhe: “Vá para o seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai, que não pode ser visto. E o se Pai, que vê o que você faz em segredo, lhe dará a recompensa” (Mt 6.6)

Outro detalhe: Jesus pôs os dedos nos ouvidos dele. Ele tocou nele, encostou nele, se relacionou de uma forma muito íntima. Este toque de Jesus hoje acontece por pessoas que estão ao nosso lado, e que são os dedos, as mãos de Jesus.

Como é importante isto, ter pessoas que demonstram carinho – que são os mensageiros de Deus. Neste momento você pode estar se lembrando de alguém que foi estes dedos de Jesus num momento quando tanto precisava.

Outro detalhe: Jesus cuspiu e colocou um pouco de sua saliva na língua do homem. Depois Jesus olhou para o céu, deu um suspiro profundo e disse ao homem: Efatá – ou abra-se.

Na verdade, o poder de Deus de abrir aquilo que está fechado acontece através de meios. Jesus poderia simplesmente abrir os ouvidos daquele homem apenas com um olhar, ou com uma palavra. Mas usou um meio, a sua saliva.

Para abrir o céu, que estava trancado por causa dos nossos pecados, Deus usou o seu próprio Filho. O único meio – ou seja, a “saliva”, o sangue do Deus-Homem.

E hoje, para o céu se abrir pessoalmente na vida de cada, Deus nos tira no meio da multidão, e usa o Batismo – uma saliva – a água com a Palavra de Deus. E com o mesmo poder que saiu de Jesus, o EFATÁ acontece em nosso coração.

Na Santa Ceia esta saliva de Jesus é o pão e o vinho onde o corpo e o sangue de Jesus abrem os céus com perdão, vida e salvação.

E na pregação do Evangelho, a saliva de Jesus somos nós, aqueles que pregam, que testemunham, que vivem.

Pois é assim hoje que o EFATÁ acontece, e onde a constatação é a mesma: “Tudo o que faz ele faz bem”.

Pois meus irmãos e irmãs, nós até podemos viver com uma certa desconfiança sobre os produtos e serviços que este mundo nos oferece. Isto é até muito importante, porque infelizmente não podemos confiar nas pessoas.

No entanto, não temos nenhum motivo para desconfiar dos produtos e dos serviços de Deus. Nós podemos contar com Jesus, porque “tudo o que faz ele faz bem”.

Pastor Marcos Schmidt – Novo Hamburgo (RS)