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SÉRIE ESCLARECIMENTOS (III): HAVERÁ "AMNÉSIA CELESTIAL"?
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Existem muitos jargões expostos nos púlpitos evangélicos relacionados à escatologia - jargões criados para tentar descrever os eventos finais e a eternidade.

Um dos mais populares é a afirmação de que não existirá lembrança da vida terrena nos céus.

Trata-se de uma interpretação de Isaías 65.17 ("Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão".) - uma interpretação, a meu ver, equivocada - que embora pareça respeitar a letra do texto, é simplista, desconsiderando outros importantes textos bíblicos.

Em primeiro lugar, esta visão escatológica é falha do ponto de vista antropológico: é inconsistente com o ensino bíblico sobre a glorificação do corpo. Na 1.ª Epístola aos Coríntios, cap. 15.35-58, Paulo conclui seu ensino sobre a ressurreição do corpo afirmando que o mesmo será um corpo "incorruptível" (v. 42), "glorioso", "vigoroso" (v.43), "espiritual" (v.44), "imortal" (v. 53), semelhante ao de Cristo (v. 49).

Pergunto:

  • Afirmar que não haverá lembrança da vida terrena na eternidade não implica em afirmar que uma de nossas faculdades mentais (a memória) funciona melhor nesta vida do que na vindoura?
  • Como seria possível falar em um corpo glorificado... e amnésico?
  • PIOR: se nosso corpo futuro glorificado é semelhante ao corpo glorificado de Cristo, isto sugere que ELE não possui a lembrança das coisas passadas 
Acho difícil crer nisto...

Creio, em segundo lugar, que além do erro antropológico, este jargão comete um erro hermenêutico: a expressão "não se lembrar" na Bíblia não se refere literalmente a esquecer, mas em não permitir que um fato passado perturbe as condições presentes. Veja o que está escrito no próprio livro de Isaías (cap. 43.25)

"Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro". Sugere este texto que Deus passa a sofrer de amnésia quando perdoa? É óbvio que não.

 
O texto simplesmente afirma que, ao perdoar, Deus se dispõe a não permitir que os pecados passados venham a se interpor no relacionamento (presente e futuro) com quem Ele perdoa. É uma declaração de segurança e estabilidade, deixando evidente a qualidade do relacionamento gracioso que Deus almeja estabelecer com o pecador arrependido (veja ainda hebreus 8.12).
 
A ideia é que o passado ficou para trás - vida nova pela frente.
 
Portanto, afirmar que "não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão" nos céus equivale a dizer que nenhum sofrimento terreno será capaz de impedir o desfrute das alegrias eternas.
 
Como Paulo escreveu, nosso "peso eterno de glória mui excelente" não será comparável à "nossa leve e momentânea tribulação" (2.ª aos Coríntios 4.17-18).
 
Portanto, pode ir para o céu sem medo.
 
Lá você perderá sua dor (Apocalipse 21.4).
 
Mas não sua inteligência.
 
______
PS: Alguns pregadores afirmam que o motivo da "amnésia celestial" é impedir o inevitável sofrimento que seria advindo da consciência da condenação eterna de pessoas amadas em vida. Ora, esta teoria é falha porque:
1. desta forma, Deus seria um ser extremamente atormentado, pois em Sua onisciência Ele possui plena consciência das penas eternas, e tais pessoas foram objeto de um amor que sobrepuja qualquer vínculo de amor terreno. Por que isto não acontece? porque o amor de Deus não entra em desacordo com Sua justiça;
2. quem assim afirma, ignora que a glorificação escatológica implicará também na semelhança moral com Cristo (1.ª João 3.2) - ou seja, a Noiva do Cordeiro compartilhará de Seu perfeito senso de justiça.  

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